quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Bootcamp Disney










Cada um de nós.
Alambique, onde se destilam vivências, mares de sentimentos, num produto final sempre diferente e surpreendente; impossível de agradar ao gosto de todos.

E assim num dia de licença, num restaurante civil, mesmo antes da refeição, é a vez de alguns temperamentos entrarem em massa crítica, tal reactor nuclear, ferido de morte.

Numa fugaz troca de palavras, o nosso co-piloto levanta-se em direcção ao artilheiro de bombordo e….perde as estribeiras. Nem sei porquê – Só tenho tempo de o conseguir imobilizar, e já no chão, desperta em consciência, muito perturbado.

Temos agora uma plateia no restaurante, onde reconhecemos diversas caras de pessoal lá da base – E algumas de patentes muito superiores à nossa, não comentando nada connosco.

-Epá…vamos ver no que isto ainda vai dar…penso para mim em silêncio…

Naturalmente, não tardou muito.

Passados dois dias, já no gabinete do Sr. Comandante de Esquadra, aí está o resultado.

- Inqualificável !! Andarem a pancadaria ainda por cima no meio de civis!! – O que vão pensar dos militares que deveriam ser a sua referência?? Um bando de rufias sem lei??

-Pois isto não fica assim. Já não basta os Alemães, ainda têm que ser vocês a dar-me ainda mais que fazer!!

- Se não sabem comportar-se, estão de regresso ao curso, começando pela recruta. E igualmente sujeitos a classificação no final, individual e como tripulação. E podem sair.

É rápida a chegada até ao “Bootcamp Disney” – Reconhecida assim a recruta por todos aqueles que por lá passaram.

Em viagem ainda, paramos um dia por La Rochelle, acolhedora e bela, longe da guerra, permite uma descontracção que há muito não vivíamos. 

Chegamos de noite ao “Bootcamp Disney” ; o pessoal de serviço à unidade estranha as nossas credenciais, e informa-nos da localização da messe, WC’s e afins.

Vindo das casas de banho, o co-piloto comenta comigo:  - Viste aqueles artistas de camuflado e tudo..devem fazer parte das atracções ? Não?

- Epá…a malta que viste é tropa regular…que está aqui proteger as instalações de possíveis ameaças terroristas…não é “faz de conta”…informo.

Mesmo aqui??  Afirma com um ar incrédulo….

- Bem, amanhã começamos o “treino básico”….

- Vá que o Sr. Comandante lembrou-se disto…. Comento com o resto da tripulação, podíamos todos apanhar uns dias de “prisa”…

Mochila às costas (pesada que nem um burro) com água, rações, e mapas na mão. Vamos a isto.

As atracções (assim baptizadas pelos recrutas, as diversas provas que têm que ser efectuadas, num limite de tempo, caso contrário é se sujeito a uma penalização) são muitas e variadas, com longas filas de espera, dadas as características desta base, dedicada à formação de todos os militares aliados.

O “Small Word” e os “Piratas das Caraíbas” estão em remodelação para tristeza da tripulação – Eram fixes de fazer e não chateavam….Comentam…

Começa-se pela “Hollywood Tower” – Que não conhecíamos… sentado com a mochila debaixo das pernas, de repente sinto a pesada mochila a fazer força como se quisesse voar…simula um vertiginoso poço de ar…o meu co-piloto não se dá nada bem com este tipo de coisas…e não quero que tenha um “blackout” com sérias consequências…mas tudo corre bem.

E aí vamos de uma “atracção para outra” sempre em passo rápido…na “casa do terror”  (nossa favorita,  uma enorme mansão de aspecto tranquilo)  acabamos por ficar presos lá dentro…a tempo de ensaiar o tema “Ghostbusters” com recrutas Franceses na mesma situação que nós.

O planeamento das “atracções” a visitar, sempre munidos do mapa, é fundamental – Caso contrário arrisca-se a passar um dia e fazer duas ou três “atracções” – As messes fazem filas intermináveis e pergunto-me se a ideia aqui não é queimar o máximo de tempo aos recrutas de modo a que tenham que ficar mais tempo de modo a fazerem as “atracções”, reflectindo-se depois na sua classificação final.

Lá vamos progredindo de forma satisfatória, até que chegamos à fila de espera para a “Montanha do Nemo”… deve coisa fácil- penso…mas depois de apanhar com uma dose de fumo dos ditos “cigarros electrónicos” com um odor intenso, fico meio estranho…

A montanha do Nemo…é na realidade uma “violenta cordilheira” onde se experiencia subidas e descidas de elevada força “g” - Nada do que estava à espera, mais ainda potenciado pelo efeito do odor do “cigarro electrónico” com que apanhei...

Quando chegamos ao fim, o artilheiro que me acompanha só têm tempo de gritar… “meu Tenente!!” o Capitão está a sentir-se mal !!

Com dificuldade, consigo sair dali, e na saída da atracção, o estomago insistiu numa limpeza rápida do seu conteúdo para cima do jardim… já sentado a tentar recuperar forças, um membro de uma tripulação Espanhola, oferece a sua ajuda, uma atenção que não esqueço.

Puxa…a montanha do Nemo deu cabo do Sr. Capitão…toda a tripulação graceja decerto…penso, enquanto retomo forças antes de regressar ao “Bootcamp Disney”.

- Não se preocupem…asseguro-lhes ao final da noite…amanhã volto à montanha do Nemo…

Novo dia, e logo pelo início da manhã chove copiosamente, numerosos de recrutas fogem da chuva inclemente, tentando descortinar como efectuar as “atracções” poupando-se à chuva e vento; não deixa de ser curioso que os recrutas Árabes tendem a juntar-se no “mundo do Aladino” enquanto os vindos dos Estados Unidos, procuram as arcadas da “Main Street” assim, cada qual tenta-se refugiar-se no que têm mais parecido “com a sua casa”.

Curiosamente, uma “Pin-up” aparece do nada, para uma breve sessão de autógrafos, numa bem pensada acção motivacional para os recrutas, por parte do comando.

Os nossos artilheiros imploram-nos em conseguir uma foto e um autógrafo junto à “princesa”….E numerosos recrutas estão por lá, em fila á espera da sua vez…

Em amena cavaqueira com uma Tenente Dinamarquesa, um dos assistentes da “pin-up” vêm informar que a secção de autógrafos vai ser interrompida….

- Are you fucking kidding me??  Responde a Tenente, que vai dos 0 aos 200km/h em menos de 4 segundos…  - I’ve been waiting here for more than one hour and a half !!

- É apenas uma pausa de 15 minutos - Informa o assistente …a “princesa” Will be back !!, e a Tenente Dinamarquesa “desacelera” da mesma forma que acelerou, e continuamos em amena conversa…

Chegados à camarata, no final do dia, o nosso Tenente têm um pé feito num bolo, devido à sua insistência no calçado, que agora lhe cobra a conta…

Na manhã seguinte, quando chega a hora de se calçar, muda de cor, ficando tal pimento vermelho, soltando um grito à medida que “convence” o pé em mau estado a entrar no sapato… - Está tudo bem, vamos é embora!! Afirma.

Segue-se o regresso à “montanha do Nemo” seguida da “montanha do Indiana Jones”  e da “Space Mountain”  sem que me perturbar minimamente.

Um tripulante Francês, na espera para a “Space Mountain” confessa que na primeira tentativa em vencer a atracção…acabou por ter que mudar de fardamento…pois a bexiga não aguentou…

Mas é espectacular. Gostei imenso. Transporta-nos de forma a vislumbrar todo o nosso sistema solar, como se viajássemos numa nave.

O cansaço não dá tréguas aos recrutas, e fica-me a imagem na mente, de uma mãe, no limite da resistência física, que adormece sentada agarrada ao carrinho do seu bebé.

Vencer o campo – Ou o campo vence-te a ti. Não há meio termo. É assim.

Jantamos na messe, apelidada de “Mac Donalds”, verdadeira recriação do inferno de Dante na terra, com elevado detalhe.

É claro que no meio de tantos milhares de recrutas, muitos de tenra idade, ainda há forma de apanhar um vírus gastrointestinal de forma fácil, como o nosso artilheiro de bombordo experienciou, já no último dia do “Bootcamp Disney”

Num caixote de lixo a cabeça de um recruta desaparece, enquanto outro lhe ampara as costas, perguntamos se está tudo bem… - No Problem !! Just feeling  a bit sick!!

Muita caminhada, montanhas russas (vou-lhes chamar assim) esperas morosas para entrar para as “atracções” mais chuva e vento…. Tá feito e valeu a pena !!

Terminado o “Bootcamp Disney” recebemos ordens de rumar a norte – Em direcção às praias da Bretanha, que os Alemães transformaram em verdadeiras fortalezas.

Não esperávamos fogo antiaéreo. Nada Mais errado. À entrada do parque de campismo um aviso adverte-nos que estamos numa zona sujeita a inundações…a noite cai e a chuva numa intensidade crescente, atinge a B-17 de tal forma que o nosso co-piloto, solta um “raro” desabafo –  Uma fritadeira…estamos dentro de uma fritadeira….À medida que os estilhaços do fogo antiaéreo batem sem trégua contra a fuselagem.

Passa-me aí uma lanterna…digo em tom baixo – Enquanto penso na minha responsabilidade para com toda a tripulação.

- Sr. Capitão…não é melhor recolher a antena…?? É que com relâmpagos destes…não tarde muito e estamos todos a brilhar no escuro – pergunta o artilheiro de estibordo, com uma capacidade de discernimento que muito me surpreendeu pela positiva.

Manhã seguinte, e a B-17 não tinha virado hidroavião…seguimos o mapa, fazemos uma passagem rasante a uma pequena ponte “grande” pela sua importância histórica  – de seu nome “Pegasus Bridge”

Um grupo de combatentes veteranos, entra, como nós, numa loja de souvenirs junto à “Pegasus Bridge”  - Olham com total estranheza,  as t-shirts, os canivetes, as canetas, os posters e tudo aquilo “made in china” se vende aos visitantes.

Passaram ali momentos difíceis, viram camaradas seus morrer a seu lado, fizeram a diferença na história da humanidade, e vêem assim esse lugar transformado em algo que nunca pensaram vir a ser possível.

Em Saint Mère Eglise – Somos bem recebidos pelos locais; transmitem-nos tristeza, que compreendemos perfeitamente, por ver parte da sua bela vila descaracterizada por diversos parques de estacionamento que agora florescem por todo o lado.

Um civil, já de idade avançada, chama-me, e com surpresa minha, em tom de narrativa, conta-me o que sucedeu nas primeiras horas do chamado “dia mais longo”, que a sua mãe testemunhou, em primeira mão, em Saint Mère Eglise; pouco ou nada a ver com o que a história relata. 

Breve visita às praias da Normandia, onde a cultura das ostras e mexilhões ocupa longas faixas da costa para surpresa de todos nós, que aproveitamos para um longo e retemperador passeio.

Encontramos uma bateria de costa Alemã, posta fora de combate, os artilheiros parecem conhecer com detalhe estas fortificações, apesar de nunca cá terem estado…como é que vocês conhecem isto assim em detalhe ?? Pergunto.

- É do “Medal of Honor” Sr. Capitão….Referindo-se aos jogos que ocupam os seus tempos livres..”tempos modernos”…penso para mim…

Por um mero detalhe logístico, os artilheiros não conseguem  concretizar oportunidade de experimentarem conduzir um carro de combate…e eu fiquei com os olhos numa oportunidade de uma “boleia” de um biplano sobre a Normandia…

De um radioso sol para chuva intensa, assim é o clima junto ao canal da mancha… muito variável e de forma muito rápida, mesmo assim quando recebemos indicação de voltar à base…eu e o co-piloto não temos vontade nenhuma de sair dali.

De regresso, e a caminho de La Rochelle, por pouco não apanhamos um tornado, o qual deixou um rasto de destruição em algumas aldeias que passamos.

- O clima…não é para brincadeiras…esta história do aquecimento global…já o presidente dos EUA diz que é um risco sério…e aqui estão os efeitos.  

No dia seguinte, estamos em Biarritz – Mas agora encontrar um “spot” onde parar a B-17, não é fácil, e na manhã seguinte é a “longa” travessia de Espanha.

 Os controlos fronteiriços já estão de volta, e com a crescente ameaça de uma guerra agora de nome terrorista, em que já nem a cidade do amor escapa.

Como há 70 anos.

Quando o terror nazi tentou sem sucesso impor uma ideologia. Como agora sucede novamente.

Com verdadeiro empenho e determinação, jamais o terror, o medo e a opressão vencerão no futuro.  

domingo, 23 de agosto de 2015

Ground idling













Final de uma rotineira tarde chuvosa; recém-chegado à messe para o jantar, encontro o nosso co-piloto “em negociações “com o pessoal da cozinha, procurando na rigidez no menu de frango “imposto”, uma asa ou perna, mais do seu agrado.

Sem aviso, somos atirados ao ar, agarrados por uma mão invisível que nos solta de uma altura apreciável em direcção ao chão.

Nos ouvidos fica um silvo, que não deixa ouvir mais nada, levanto-me do chão com alguma dificuldade, a messe está completamente de pantanas, tudo virado do avesso.

 Uma explosão de gás na cozinha da messe??

Procuro o co-piloto pelo meio dos escombros. Ainda meio atordoado da explosão, levanta-se cambaleante enquanto se interroga em voz alta – O que raio foi isto?

Não passam mais do que cerca de dois minutos (confesso que a minha noção de tempo não estava no seu melhor) e um gigantesco estrondo faz agora tremer o chão.

Conseguimos sair da messe – para quase cair dentro de uma cratera enorme que não existia ali anteriormente.

Estranhamente, não se ouviu qualquer alerta de ataque aéreo.

O Jeep ainda está inteiro. Eu e co-piloto saltamos lá para dentro. 

A adrenalina está agora no máximo.

Intermitentes, as explosões sucedem-se com estrondos de maior ou menor intensidade, conforme a distância a que ocorrem.

Uma das camaratas dos artilheiros foi atingida, dirigimo-nos para lá a toda a velocidade, quase capotando o Willys de modo a evitar uma cratera no meio da estrada, por entre escombros, já no interior da camarata, descobrimos um dos nossos artilheiros, ainda consciente, apesar de sangrar profusamente.

O co-piloto quase desmaia perante o nosso artilheiro de estibordo. 

Conseguimos tira-lo dali e já no Willys vamos direitos à enfermaria, onde lá conseguimos alguma atenção do médico, que,  “não tinha mãos a medir” perante a quantidade de feridos,  que entravam pela porta da enfermaria , nas mais diversas condições, e  que perante a nossa angustia, comenta – “safa-se, não há crise”.

- Deixa estar…diz o co-piloto…os alemães vão pagar com juros o que fizeram…

Acabei por ficar também na enfermaria - um pequeno corte, mas que teve que levar meia dúzia de pontos, nada em comparação com o sofreu o nosso artilheiro de estibordo.

Incólume, a nossa B-17 repousa no hangar, em contraste com a amálgama de peças em chamas espalhadas por todo o lado, de outras fortalezas apanhadas desprevenidas nos seus hangares, reduzidos agora a escombros.

V-2…quem diria…lembram-se de atacar a nossa base com V-2…devemos estar mesmo a dar-lhes onde lhes faz mossa… comento com o nosso artilheiro estibordo, já na companhia também do nosso navegador, igualmente na enfermaria, com um ferimento numa mão que o faz passar um mau bocado.




É claro que pouco tempo depois, é tempo de um grande “raid” em território inimigo, com as B-17 que sobraram e onde se incluía a nossa.

Todos temos alta, por parte do médico, o que até estranhamos, estando o artilheiro com a ferida ainda bem aberta, e eu ainda com os pontos a “morder” perante um movimento mais brusco que tento fazer.

Bem, isto com os médicos da tropa, …é.. toca a andar…nada de lamechices.

Um dos artilheiros tira uma foto de uma V-2, que caiu perto da base, numa via-férrea, sem explodir, a nossa sorte é que a pontaria destas armas não é grande coisa… e deixei eu de fumar para apanhar com um “charuto” destes na tola!! Era só o que me faltava !! - comenta o co-piloto.

O nosso co-piloto clama por uma missão longa – quer a desforra do que aconteceu, vou lembrando-lhe que não é boa ideia irmos em missão neste estado – tudo se pode complicar com um “pequeno” nada.

- Devemos esperar até que estejamos todos em condições.

Passam-se alguns dias até ao “raid” em território inimigo. Mas não constamos da lista que deverá partir em direcção à  alvos na Alemanha.

Indignado, o co-piloto atreve-se a pedir uma justificação para o sucedido ao comandante de esquadra.

“- Estão designados para uma missão de apoio de vigilância da linha de costa” – responde enfaticamente, continuando, “a qual cumprirão conforme foi designado.”

O co-piloto tenta ainda ensaiar um “mas…” cortado subitamente por um “ - Boa tarde, decerto compreendem que a nossa base está numa situação complicada, tenho muito para resolver”. Do Sr. Comandante.

E assim levantamos voo, de um piso que mais parece uma pista de TT, agora que as crateras que as V-2 abriram na pista, encontram-se cheias de terra ,de modo a permitir a utilização, ainda que precária da pista.

 Apesar de tudo, voar é sempre voar. Acompanhando a linha de costa, é um voo tranquilo, “-    não sabe a nada”, afirma o co-piloto. Para mim não é assim.

 Tranquilidade…uma gritaria enorme vem da parte traseira da fuselagem. Um ataque de pânico…do nosso recém-chegado artilheiro da “ball turret”, que por pouco não saltou fora da B-17, ainda fui a tempo de o agarrar-  e abraço-o com força; se insistir no salto, vamos os dois.

Entretanto a tripulação alcança-nos, puxando-nos decididamente para dentro, e ainda em pânico, o artilheiro leva de forma quase instantânea, uma “coça” dos restantes membros da tripulação, perante tal tresloucado acto; acabo por regressar à enfermaria, agora um polegar que ganhou o dobro do seu tamanho depois de toda a minha aflição em segurar o jovem artilheiro.

- Não volta a voar connosco – Afirmo de forma inequívoca  ao co-piloto.

-Epá…têm calma…se fazes isso ao puto…tá tramado…esse pessoal vai todo para terra…para o armamento e assim…já viste o qual vai ser o destino deste miúdo a montar detonadores em bombas?...Pois…afirma o co-piloto em tom de desculpa, e continua:

Esta cena do ataque das V-2 à base foi muito marada…sabes do melhor? Agora não consigo dormir depois daquilo. Nada. Podem dar 5 da manhã é como se fosse meio-dia. E depois ando a cair de sono durante o dia -Uma treta, afirma o co-piloto.

Não te esqueças que os artilheiros estavam todos na galhofa na camarata quando aquilo foi tudo pelo ar, o puto da “ball turret” nunca tinha visto sangue, e deu-lhe  depois, para aquela macacada de quer saltar em pleno voo, vais ver que perdeu a vontade.

- Mas à pala de um “número” destes pode arranjar um grave sarilho para todos nós; – Imagina um número destes sobre um alvo, com caças inimigos por todos os lados …ainda acaba com a gente todos…

-Tu és quem manda…mas as coisas não são assim tão “preto ou branco” contrapõe o co-piloto.

Mesmo a tranquila missão, relembra sempre que a guerra é uma constante, já no regresso, a brutalidade do conflito ainda vai a tempo de me dar mais uma chapada na cara, quando ao ver uma mancha branca no meio de um pequeno bosque, baixo de altitude, quase para a altura da copa das árvores numa manobra que nem os artilheiros se aperceberam, para deparar com um corpo suspenso num para-quedas. Comunico a posição, nada a mais havia a fazer, infelizmente.

A B-17 volta às surtidas, nas mãos de outras tripulações, o que nada agrada ao co-piloto, que não perde a ocasião de uma saída da B-17 para ir “picar os miolos” das tripulações substitutas, de forma intensa.

Xii….mas o que é isto??..”Assim nem voo conseguem levantar”….”Não se esqueçam que as “bombinhas”  é para largar na Alemanha e não aqui”… “vejam lá se trazem a menina inteira…que a gente quer ir dar uma voltinha com ela”…perante o olhar enfadado das tripulações prestes a embarcar.

A proximidade da missão agora “já cheira” para nós,  e num dos poucos hangares sobreviventes ao ataque, é altura da “esgrima” de argumentos entre o co-piloto e o chefe da manutenção, desta vez por causa dos pneus da B-17…

Sabendo de uma surtida que ia ter lugar e de modo a dar um “picadinho” nos miolos da tripulação novata, convence-nos, a meter-nos no Willys, directos ao hangar. Paramos brevemente no bar de praças para um copo com uma das tripulações, prestes a sair em missão.

É verdade que vocês já viram um daqueles aviões dos Alemães que não têm hélice?? Perguntam-nos curiosos, como se de uma aventura se tratasse…

Ouvimos um passar…de noite, e bem pertinho….a B-17 abanou como se fosse de papel –  nem deu tempo aos artilheiros de se agarrarem as metralhadoras…passou sem embirrar, foi a nossa sorte, - informo, sem todo aquele entusiasmo da pergunta que me fizeram, enquanto os nos seus rostos o entusiasmo passa a para uma expressão séria, de preocupação.

"- Estes pneus são mais perigosos que a Luftwaffe inteira"…diz o chefe da manutenção entre dentes…ainda se tramam à pala disto…vai ficar inscrito no registo de manutenção da aeronave…vocês querem voar…depois há treta e ainda dizem que a culpa é nossa…

De ouvido afiado, o co-piloto não deixa passar em branco. De uma volatilidade crescente de dia para dia, mesmo com o comandante da base que por acaso se encontrava presente para a partida da nova tripulação – Explode, com o chefe da manutenção.

 “- Estes pneus estão mais perigosos que a Luftwaffe”?? – Você sabe lá o que é isso!! Já viu um ME-109 a cantar-lhe com os seus canhões, e você sentado de frente para uma beleza dessas? Com tudo a voar em 1000 pedaços a sua volta??

Chama o comandante aparte, mas dentro do hangar todos ouvem com se estivessem ao lado dele.

Se estes gajos fizessem o trabalho deles em condições e se deixassem de tretas !! era bem melhor!! – E por aí afora….até que no dia seguinte até acabou por pedir desculpas ao Sr. Comandante..

Lá conseguimos “conter” a “explosão” do nosso co-piloto – O artilheiro de estibordo, ainda a recuperar dos ferimentos do ataque inimigo, não deixou de me confessar - “ Sr. Capitão…o nosso tenente quando explode com alguma coisa, é sempre de uma forma cada vez maior…se temos alguma “chatice” no voo…logo veremos…no que vai dar…

Agora milhares de refugiados de guerra percorrem França à procura de um futuro, em direcção aos países ricos do norte, apesar de não se tratar mais do que um mito, uma quimera, um objectivo para quem nada mais têm, sacrificando até a sua vida, na tentativa de deixar para trás toda a destruição e miséria que têm sofrido, em direcção a um futuro de esperança e oportunidades para si e para as suas famílias.

Quem toma efectiva consciência da realidade, fica apreensivo. Ou então bate com a porta do camarote na cara do tripulante de bordo, clamando –“impossível!! - O navio é inafundável!” quando é avisado pelo tripulante de bordo, da iminência do afundamento da navio.  

As missões caracterizaram-se pela sua singularidade; nunca há uma rotina, um “foi como da outra vez”  agora com mais variáveis, o desafio aumenta, paralelamente à preocupação.


Valha-nos a vontade.
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sexta-feira, 27 de junho de 2014

Objectivo redefinido










 
 
Chove. Nem sequer abranda.
Em direcção a um dos edifícios de logística da nossa base, com a capota do Willys a acusar o peso da enorme bátega de água, um dos artilheiros, confidencia-me:
- Sabe, Sr. Capitão não tenho “fé” nenhuma nesta próxima missão. (numa breve frase de tom pesado, expressando cansaço)

- É o nosso trabalho nesta guerra – Afirmo, mas também pela forma como me expresso, o jovem artilheiro facilmente percebe que a motivação é a mesma da dele.

O nosso co-piloto parece ser o único que vibra com a perspectiva da surtida. Nada aplicado nos seus deveres, enquanto em terra, na base, com o anúncio da missão tudo aparece feito com um brio e energia nunca vistas.

O que desalenta mais ainda toda a restante tripulação – Sem frases, vê-se bem nos olhares que trocam.   

Não gosto de voar assim – penso para mim, mas não o confidencio a ninguém.
A bordo ganhámos o último membro em falta na B-17. O artilheiro da “Ball turret” – ou seja da esfera onde duas metralhadoras gémeas de .50 dão a protecção a todo o ventre da B-17.

É uma posição perigosíssima. Preferia não ter que voar com ninguém na esfera, todos conhecem muitos casos com desfechos terríveis, onde B-17 ficaram sem trem de aterragem e foram forçadas a pousar com os artilheiros neste local, presos, sem que os mesmos se conseguissem libertar deste posto. Além do mais é o uníco local que nem sequer permite que o seu operador tenha o para-quedas colocado.

Não quero pensar nisso.
É muito jovem este novo membro da tripulação – Magro e ágil como se requer para a infame “esfera”. Cheio de energia e motivação.

Em voo, chamo-o ao Cockpit. Perante a incredulidade e olhar crítico do co-piloto, digo-lhe:

- Vá sente-se aqui, agarre na nossa menina com delicadeza, ela não gosta de brusquidão.
Observo-o em pé; No seu olhar cabe todo o infinito. Dá pequenos toques no manche, a que a B-17 nem sequer responde.

-Obrigado Sr. Capitão !! Que experiência Única. Obrigado.

- Vamos ver se isto agora não se torna moda…deixa cair a afirmação o “incomodado” co-piloto.
Entramos em território neutro. Na manhã seguinte impõe-se um reabastecimento, num local já conhecido.

A aproximação ao aeródromo não é das melhores. Rapidamente se identificam algumas pequenas armadilhas – Manobrando para as evitar – Eis que um ruído grave, oco, percorre toda a fuselagem.

-Batemos em algo !! Afirma o co-piloto num tôm grave.
- Bati em algo…mas o quê?? Penso para mim.

Aterramos. O leme de profundidade do lado direito está danificado, assim como o estabilizador horizontal; A fuselagem apresenta uma deformação assinalável.

- Operador de rádio – ligue à base. Pede o Co-piloto.

-Tenho que fazer de imediato o relatório de danos ao Sr. comandante., como compreende Sr. Capitão.

- Claro que sim, prossiga. Afirmo.
Só me faltava esta…era mesmo o que eu precisava na minha folha de serviço…evitei as pequenas armadilhas para chegar ao combustível…mas não evitei a armadilha na aproximação, que me valeu os danos na B-17…
Abastecemos. Levantamos voo dali.

Num ápice, paralelo a nós, aproximadamente às 09:00 horas, enquanto saiamos do periférico de Madrid, em direcção a Zaragoça, descola um F-18 Hornet que rapidamente desparece sob uma curva apertada à esquerda em que a potência dos seus motores se afirma em toda a plenitude.

Se bem que os danos não influenciam o comportamento da B-17, a verdade é que estão lá.

Têm que ser avaliados.

O co-piloto, bem ao seu estilo, afirma: - Ora…se não entra água…esta tudo bem….

O que não é bem assim.
Em Andorra discute-se a decisão de avançar em direcção ao objectivo, não sendo possível uma correcta avaliação dos danos no local.

Para França – Lá a resistência pode-nos dar uma ajuda com isto. Eles têm experiência.
Assim partimos em direcção a um hangar clandestino, que o co-piloto não consegue localizar.

Um dos artilheiros aproxima-se de mim e diz- desculpe Sr. Capitão. Tenho aqui um pequeno “Beep” que deve permitir localizar esse Hangar.
Assim seja então – Sr. Tenente (co-piloto) ceda o seu lugar ao nosso Cabo, por favor – ordeno.

- Olha isto…tá bonito…lá vai resmungando enquanto se retira do seu lugar, expressando uma infeliz resignação.

Bem –  O Sr. Cabo, o Sr. é que nos vai guiar em direcção ao destino – Afirmo em tôm grave.

Se me disser para virar á esquerda ou á direita é exactamente o que vou fazer – Estamos todos na sua mão agora. Não esqueça.

Nervoso, o nosso cabo artilheiro, está a altura do desafio. Guia-nos milimetricamente em direcção ao camuflado hangar, felicito-o pelo feito, vou propô-lo para uns dias de licença extra.  
Já no interior do Hangar, somos recebidos com grande simpatia pela resistência Francesa, que rapidamente se prontifica para nos ajudar.

O problema é que a reparação é morosa. – E “andar de passeio” pela França ocupada é complicado, só para situações de extrema necessidade, no caso de a aeronave ser abatida, por exemplo.

Carregada para um voo em direcção a um alvo designado, dormitam no interior da B-17 algumas dezenas de bombas que não vão conhecer o alvo.

Teriam que ser lançadas no oceano, mas para a resistência, todos os projecteis são de grande utilidade; A resistência irá assim dar-lhes um outro destino.
A resistência Francesa dá o seu melhor para que possamos partir em segurança, sem qualquer custo, desejando-nos uma boa viagem.

É a atitude das pessoas que faz a diferença num momento – Tudo o resto não passa de cenário.

Fora do território ocupado, com a missão original cancelada, tentamos aproveitar o tempo para visitar a bela La Rochelle.   
O seu Aquarium é digno de uma demorada visita, onde os oceanos ganham uma nova perspectiva, dos tubarões às tartarugas, todos se mostram exímios anfitriões, como numerosas fotografias assim documentam.

Segue-se o jantar, junto ao emblemático porto, os pés fustigam os artilheiros depois de uma longa marcha a pé do parque de campismo até ao centro da cidade; E a vinda de táxi para o parque de campismo, permite um apreciar (tal como um bom vinho) o conforto da viatura que nos transporta, em comparação com o que temos lá pela base.

- Quero uma viatura destas lá na base !! Diz um dos artilheiros.
- Ora…Ora…é o cansaço é que vos faz dizer que esta viatura é mais cómoda que as nossas lá na base. Afirma o co-piloto.

De forma imediata, em uníssono, contrapomos que esta completamente errado, volta a insistir na mesma afirmação apesar da falta de credibilidade no que diz, e que todos reconhecem.

Na manhã seguinte, somos interrompidos nas rotinas diárias por uma mensagem da base, dando conta que o Hangar dos caças tinha sofrido…uma inundação séria, debelada pelo pessoal, na medida das suas possibilidades.
- Bem, se já não está água a correr…logo seca. Afirma o co-piloto.

Não é assim –  Sabes bem que aquilo se transforma numa piscina lá dentro.  E não são barcos que estão lá. Estamos de regresso. Já chega.

Tal criança de 2 anos, perde-se agora o co-piloto em numerosas tentativas de conseguir mais algumas horas de voo desta missão, custe o que custar.

Segue-se a fase da birra. Mas a decisão já estava tomada. A impressão que fica é que não é a melhor.
Já em Biarritz, pela manhã está mais bem-disposto, enquanto passa revista na placa as diversas aeronaves estacionadas, das mais diversas proveniências, a tempo ainda de apanhar um pequeno “cagaço” com uma passagem baixa de dois Mirage III da França Livre.
- Estes gajos…se fossem mas era brincar para longe…resmunga o co-piloto, perante o meu ar de satisfação e alegria pela “visita”.
Aproveitamos antes da partida, para trocar algumas impressões com uma tripulação Sueca (coisa rara, nestas paragens) bastante simpáticos e afáveis.

Após o regresso segue-se a reparação; O Sr. Comandante foi de uma compreensão inexcedível, e entre muitas outras B-17 com danos maiores,  os olhos comprovam o que a mente já há muito sabia – Uma  frágil folha de alumínio, é toda a nossa protecção. Nada mais.
Consequências?
Não volta a “levantar” na minha mão sem seguro contra todos, visto a reparação, que apesar de parecer “pequena”, teve um número “grande”.

Agora mesmo no Willys, a tripulação em tom de gracejo não deixa escapar a ocasião... veja lá bem a manobra...Sr.Capitão.

terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Vão-se os anéis, a seguir os dedos, fica o olhar.

 




 Agrupam-se os dias, em semanas, por sua vez em meses, e finalmente naquilo a que chama de anos.
Que nos fica de tudo isto?
As experiências que tivemos, nas mais diversas situações, das pessoas que se cruzaram connosco e como reagimos, do que significam para nós todos esses momentos e o que aprendemos (ou não) com eles.

E seguimos.

Altera-se a percepção. O aniversário festejado de forma improvisada, praticamente no meio de desconhecidos, por impossibilidade da presença das fileiras familiares, oferece assim uma dimensão nunca anteriormente vista.

Apagam as luzes no restaurante. Dezenas de pessoas ficam as escuras. Os poucos familiares presentes arrancam tal APU, a turbina preguiçosa da conhecida música –  “Parabéns a você”.

No espaço de segundos juntam-se dezenas de vozes vindas da escuridão- A sensação é única, de forma instantânea sou transportado para os aniversários da minha infância, na minha casa quando ainda os meus aniversários se contavam pelos dedos de uma mão.

Que riqueza.

Que generosa dádiva que nem a mais cara e desejada das prendas conseguiria realizar.
Liberto da interminável demanda a que a sociedade nos procura empurrar de forma vigorosa, da televisão de plasma para a de Led’s  e sei lá mais o que, do carro blablá para o carro blobló, de toda essa variedade de bens materiais que afinal de conta só têm um objectivo – A tua escravidão.

Fico com os olhares. Que com a intensidade e diversidade de emoções que expressam não se desgastam com o tempo, conseguido sempre alcançar mais do que a memória, chegando ao coração.
Única riqueza esta.

Que 2014 tenha assim para vós muitos olhares, intensos de alegria, motivadores, e transbordantes de energia que vos façam assim sentir felizes, de modo a assim enfrentarem todos os difíceis momentos, com um renovado animo, verdadeiramente imbatíveis; de modo todos à vossa volta possam sentir o mesmo, e que afinal a “felicidade solitária” do individuo não existe, só existe quando é comum, entre sentimentos e acções trocados, libertos de interesses.

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Espiral Sedutora


 
 
 
 
 
 
 
 


Sem demora…podem acompanhar-me os dois ao meu gabinete?

Mau…quem é que terá feito asneira da grossa? O Sr.º Comandante não é grande apreciador estas reuniões não agendadas…bem vamos ver o que será, penso para mim.

Uma pasta côr de laranja sai de uma gaveta, pela mão do comandante, e aterra suavemente na sua secretária.

Nunca tínhamos visto nada daquilo, o co-piloto mostra uma expressão de espanto assim como eu.

Lutando para não recorrer aos óculos, O Sr. Comandante no seu tom calmo e imperturbado, informa-nos da necessidade de uma missão que nem a mente mais imaginativa, depois de algumas cervejas do clube de oficiais conseguiria elaborar.

- Meus caros...dirigindo-se a mim e ao co-piloto, com um tôm de dúvida na voz, nunca ouvido por nós, em qualquer ocasião.

-Partem amanhã. Logo ao raiar do dia; o vosso plano de voo aprovado, é para um aeródromo próximo, mas na realidade o que irão realizar é um voo de reconhecimento extenso, sobre as regiões ocupadas pelo inimigo, de modo a averiguar a utilização das unidades fabris no esforço de guerra que é dirigido contra nós.

É verdade, não estranhem o facto de verem a vossa B-17 sem quaisquer marcas relativas ao esquadrão e à nacionalidade. Caso sejam detectados poderão usar essa mais-valia em vosso favor, e ao que parece também o tempo vós irá ajudar –Do que sabemos a Europa está mergulhada em gelo, coisa pouco habitual no final de Março.

Lembro-me do que pensava após a última surtida, da espiral de dificuldade crescente, das missões, onde só um risco superior parece motivar toda a tripulação e inclusivé eu.

-Tem perguntas?

Interrompe-me o pensamento a pergunta do Sr. Comandante, já à espera de um silêncio na resposta, da minha parte e do co-piloto, até que ouvimos – Bem…assim sendo, boa sorte para vocês e toda tripulação…ao menos esta missão é como você gosta….sem objectivos demarcados onde têm que lançar bombas… tenham cuidado.

Logo de madrugada, sai toda a tripulação em direcção à aeronave, em silêncio, a B-17 está limpa de qualquer bomba, têm apenas o estritamente necessário para a sua defesa.

No porão das bombas está agora instalado um “pack” de reconhecimento, ou seja um conjunto de câmaras e respectivos rolos fotográficos.

As guerras deviam ser travadas apenas assim…como fotografias…quem tivesse as fotografias mais interessantes, ganhava; sem mortos ou feridos - penso para mim.

O pessoal do reconhecimento aéreo esse sim…o seu lema diz tudo…”alone-sozinhos” “unarmed - desarmados” “unafraid – sem medo” quem me dera estar nessa esquadra…

-Epá!! Vocês vão sozinhos ver se caçam umas“pin-ups”?? - Diz um dos mecânicos…todos sorrimos mas ninguém responde.

Voamos agora por uma outra rota, minha velha conhecida do tempo dos caças, de nome IP5, muitas vezes fatal devido aos muitos abusos que lá se cometiam.

Agora é praticamente uma auto-estrada, sem surpresas de maior, tirando o facto de termos sidos depenados, com simpatia, numa das suas áreas de serviço, por umas frugais refeições sem qualidade nenhuma, ao contrário da tradicionalmente rica culinária da zona.

Segue-se Espanha, o trânsito, apesar de se tratar de uma via internacional, é escasso; o nosso objectivo é chegar à França livre, a Biarrtiz.

-Nem devemos apanhar mau tempo…diz o co-piloto perante os relatórios da meteorologia tivemos acesso antes da partida.


Prestes a chegar a San Sebastian, e já de noite, a temperatura exterior cai, mas nada de muito preocupante, algumas placas luminosas alertam para a possibilidade de gelo.

Um estranho ruído parece vir agora debaixo dos pneus, parece que partimos tal açúcar queimado em leite de creme.

A temperatura exterior aproxima-se dos 0ºc, e com ela um conjunto de curvas ziguezagueantes bastantes fechadas, a direcção da B-17 torna-se demasiadamente leve, com uma tendência de querer seguir em linha recta de acordo com o que a gravidade impõe às suas 3,5 toneladas.

-Gelo…a estrada está cheia de gelo…tá bonito…primeiras horas da missão e já apanhamos uma dose destas…comento com o co-piloto.

Conseguimos chegar a Biarrtiz, ao pequeno aeródromo da França livre, onde se acotovelam várias dezenas de aeronaves, das mais diversas nacionalidades.

Um dos equipamentos está completamente“INOP”(inoperacional) o modo de funcionamento do frigorífico a gás – se tivermos que parar sem fonte de alimentação de corrente eléctrica externa, as nossas provisões estragam-se num instante.

-O que vale é que em andamento, a B-17 sempre lhe fornece a energia necessária para o frigorífico a funcionar …menos mal, - diz o co-piloto.

Os sucessivos cortes de manutenções começam a fazer-se sentir…às vezes as coisas“pequeninas” põem tudo o resto em causa, quando menos se espera; a janela do meu lado recusa-se a abrir; mas como está frio não faz diferença.

Atravessamos França, por uma sucessão de estradas, em que já reconhecemos determinadas localidades, e casas inclusivé, de outras missões.

Surge o som de uma sirene de polícia da nossa cauda. Faz-nos indicação para parar um carro à civil. Encostamos para descobrir que argumentam comigo que desrespeitei um sinal vermelho. Não pode ser, não fiz isso.

No final, já o polícia, dizia que afinal tinha sido Laranja…que tinha pena, mas tinha que ser. Lá ficou na minha caderneta de voo; se achasse que foi merecida nem dizia nada…mas assim…têm um sabor amargo.

De fugida às pesadas portagens Francesas, o percurso é obrigatório pelas estradas nacionais.

Passamos por algumas pequenas localidades, subitamente o indicador de temperatura exterior (único extra que tivemos direito para esta missão) dispara um pequeno alarme sonoro, sempre que a temperatura atinge os 0ºc.

Progressivamente parece que algo choca contra o pára-brisas sem ruído. Passo as luzes para máximos e a intensidade desse fenómeno é enorme, chuva não é.

Parece que estamos no espaço sideral, no meio do vazio, presenciando um fenómeno completamente novo, sem saber como reagir.

O indicador de temperatura exterior soa agora o seu alarme quase em contínuo, e o co-piloto já pragueja cada vez que apita, recordo-me da formação básica de vôo.. – Atenção á formação de gelo !! -Dizia-nos à altura o instrutor.

Tiro os olhos do horizonte, e olho para o canto inferior esquerdo do pára-brisas, com ajuda de uma pequena lanterna

Gelo; quase translúcido, brilha perante a luz da lanterna, contra a escuridão absoluta do exterior.

Volto a desviar o olhar para a estrada, tinha mudado de forma instantânea da côr negra para o totalmente branca.Um poderoso nevão se faz assim sentir.

Desaparecem assim todas as referências do percurso; marcações da estrada, bermas e limitação de faixas; e a estrada continua a subir.

Os pneus começam agora a perder tracção e o peso da B-17 parece que está agora em cima das costas de todos nós, tripulação, no interior da sua fuselagem.

Coladinhos à nossa traseira, alguns pequenos utilitários procuram um apoio que não posso dar para sair dali, a sensação de perda de tracção dos pneus intensifica-se, viro-me para o co-piloto e digo-lhe: É agora. Desta não nos safamos.

Surge um túnel. Ganha-se tracção novamente no seu interior, à saìda, uma pequena rotunda, para a contornar, carrego no travão para perceber, pelo longo deslizar que senti, que afinal estava num navio, veículo que não conhece travões, em que a sua massa se impõe inexoravelmente, contra o que possa surgir a sua frente.

Já só queremos uma auto-estrada. Nada mais. Até pode custar 200 euros. Não faz diferença, tudo é melhor do que aquilo.

Encontramos uma entrada para a auto-estrada.

Estamos safos... agora é só encontrar uma área que dê para dormir…

Mas não surge qualquer área de descanso, e a neve aumenta em quantidade.

Desaparece da via em que circulamos, primeiro a berma, depois a faixa da direita debaixo de um enorme manto branco.

Só a faixa da esquerda permanece aberta, graças a uns solícitos limpa neves que teimam lutar contra a neve.

Graças a eles, conseguimos alcançar uma zona de altitude mais baixa, finalmente livres da neve.

-Missão de reconhecimento...nunca em combate apanhei um número destes…pior que isto só quando fui abatido no meu caça; afirmo perante o ar espantado do co-piloto.

-Estas fazem mossa. Acredita que sim; um dia em que tiveres uma aeronave e toda a tripulação à tua responsabilidade vais ver o que é. Acredita.

Na manhã seguinte, pela altura do pequeno-almoço, as notícias que aquela região –Aurillac (nome que ficou gravado na minha memória) tinha sido vítima de uma intensa tempestade de neve deixando muitos habitantes sem electricidade.

-A zona mais fria de França !! Assim um Francês a definiu para nós, já muito depois do sucedido.

Por entre montanhas e vales pintados completamente de branco, sob um céu azul alvo da minha maior atenção, em que qualquer agravemento das condições climatéricas, era no mínimo a repetição do que já havíamos experimentado e que não deixou saudades.

Na estrada sucedem-se os avisos em forma de sinal de trânsito, alertando para a obrigatoriedade de equipamento para neve a bordo de todas as viaturas – Algo totalmente inexistente na nossa B-17, de modo a não levantar suspeitas sobre o verdadeiro teor da nossa missão, aquando da partida.

Conseguimos alcançar a simpática Turim.

Os seus“Carabinieri”desbordam-se em esforços para ajudar a localizar um aeródromo onde possamos poisar.

Com uma localização fantástica, o parque de campismo, mostra afinal, que um aeródromo e muito mais do que apenas boas infra-estruturas; a simpatia e a solicitude de quem o mantêm é algo igualmente importante.

Após o jantar vamos até a messe do aeródromo. Pensei estar num filme de Felini, onde dois irmãos gémeos, que facilmente se denotava oriundos do leste, com os seus trajes à anos 70, ensaiavam números de magia para uma multidão de 5 pessoas.

Imperdível, conforme um dos “Carabinieri” me disse, o Museu do Egipto. Na sua ampla sala de estátuas somos de imediato transpostos para outra realidade, tais exploradores da romântica década de 20 do século passado.

O único parlamento sobrevivente das cidades estado italianas encontra-se em Turim, igualmente. Contêm o segredo como a Europa deve subsistir. Única igual a si mesma com todas as diferenças nas mais diversas áreas. Não um estado gigante acéfalo, onde algumas nações oportunistas tentam vincar o seu poder, como já o tentaram fazer no passado pela força das armas, valendo-se na actualidade da economia.

Partimos em direcção a Milão, algumas placas de direcção na estrada indicam o lago Maggiore. Convicto que se trata de um dos locais de filmagem de uma parte da saga do agente 007, vamos até lá.

Mas não encontro nenhum daqueles dos locais que esperava. Na realidade enganei-me no Lago, seria afinal o lago de Colmo. Entramos em Milão de noite, e o parque de campismo teima em não aparecer.

A noite avança, junto aos semáforos e rotundas de Milão, a sedução é forçada a ganhar sustento para algumas pessoas, à troca de um prazer esquivo para outras.

Chegamos a perguntar a direcção do parque de campismo, a uma actriz desta encenação dramática, que atenciosamente nos informa não conhecer o tal aeródromo.

Optamos por uma área de serviço, algo nada aconselhável, festejamos quando ao acordar, vemos que está tudo bem.

Lá conseguimos alcançar o parque de campismo, até têm uma mini quinta com animais, onde um déspota pónei aterroriza os outros animais se alguém tenta dar comida senão a ele.

O pessoal apercebe-se da situação e o pónei é literalmente deixado a ver navios como feitios assim bem merecem.

As famosas galerias Vittorio Emanuele são imponentes, dignas de uma visita, a Catedral Duomo transporta-nos para uma gigantesca escala do gótico, sem igual.

Chove sem perdão, enquanto um verdadeiro rio de gente, totalmente diferenciada em todos os géneros, percorre as arcadas junto a catedral do Duomo, por segundos parece que reencontro à distância de um braço, a mulher dos cabelos cor de fogo de uma outra vivência que dista já 20 anos, em segundos deixo de a ver, no turbilhão do rio de gente.

Mergulhamos no interior de uma cuidada galeria comercial, muita oferta de produtos, de elevado preço e qualidade, depois de uma selecção de “preços light” dirijo-me à caixa para efectuar o pagamento.

O ticket das compras que recebo, pinga uma sedução açucarada por todas as pontas, que deixa lembrança, muito além do fugaz momento.

Deixamos Milão; a vida por lá é puxada financeiramente, para quem é de fora, no seu centro histórico ainda ensaiei uma pequena contra mão, não tendo reparado num sinal de sentido proibido do tamanho de um prato de mesa, valeu-me o pronto aviso dos Milaneses, mesmo assim com um sorriso para mim perante o erro que cometia.

Alcançamos o Mediterrâneo, deixando a neve definitivamente para trás. O Mónaco acessível tal Cascais a partir de Lisboa em comboio, a partir de Ventimiglia.

A dimensão é totalmente diferente aquando da nossa primeira visita. Os Monegascos são afáveis e simpáticos, da experiencia que tivemos.

Junto ao seu sobejamente conhecido casino, dormitam viaturas imponentes, numerosos turistas apressam-se em direcção as mesmas, para uma foto junto a essas viaturas, não necessariamente as mais belas, de apuro técnico ou raridade, apenas estandartes do poder da força bruta do dinheiro.

Claro que as viaturas míticas também se encontram por lá, mais trabalhosas de encontrar, estacionadas numa qualquer rua estreita, tal utilitário, esquivas, difíceis de apanhar em foto, perante a surpresa que causam.

A descontracção e ambiente, que os adultos das mais diversas origens encontram no café de Paris, só encontram um termo de comparação com a experiência vivida pelas crianças na Disneylândia. Confesso.

Segue-se a tentativa de atravessar França o mais rapidamente e economicamente possível, o cansaço acaba por se impôr em Narbonne, e uma área de serviço é a solução encontrada para ganhar algum descanso.

De manhã estranho a desarrumação do porta luvas do co-piloto, mas é habito os artilheiros virarem tudo do avesso aquando das paragens. Escotilhas dianteiras abertas…hummm…queres ver que alguém se as esqueceu de fechar durante a noite??

Não..na realidade fomos “visitados”…ou seja roubados, mas de uma forma cuidada e discreta, que até de mim mereceu um elogio–extremamente profissional.

A fechadura de uma das portas foi aberta de tal forma que parece que tinha sido aberta pela própria chave- sem nada forçar.

Vêm-me à ideia que podíamos ter sido “gaseados” – o termo é mesmo este; é comum os assaltantes recorrem a um gás narcótico colocarem todos os que se encontram no interior de uma viatura a dormir profundamente e assim "limparem" tudo aquilo que desejarem tranquilamente, como tantas tripulações já nos informaram terem sido vitimas.

Mas não temos sintomas disso, e tirando uma carteira (que tinha sido comprada na viagem, sem nada no seu interior) não levaram mais nada.

-Epá !! Esta é grave! Não termos acordado com uma lâmina de uma faca no pescoço foi uma sorte!! Imagina que deitam as mãos aos livros de código das comunicações…não estás a ver a gravidade da situação…-digo para o co-piloto.

Atónito, não consegue dizer nada. Admira-se apenas não terem levado mais coisas; recorda que durante a noite, sem aviso, o artilheiro de cauda, deu um pulo para cima do seu peito, o que o fez refilar de uma forma estremunhada, mesmo com todo o cansaço.

Foi o membro mais novo da tripulação quem nos safou. Chegamos à conclusão. De sono leve, o seu instinto felino deve ter ouvido algo que o fez pular sobre o co-piloto e assim, o alvoroço afastou os assaltantes.

-Mesmo apesar de voarmos longe das rotas mais utilizadas, e com horários totalmente descentrados e evitando sempre
 grandes aglomerações populacionais…podemos sempre ser caçados...

Arrancamos dali. Em direcção ao Aeródromo de Biattriz, que conseguimos alcançar, onde fora de horas, tal nós, há uma semana, chega uma aeronave Espanhola, sem um local onde parquear.

Agarro nas lanternas e imediatamente vem na minha direcção; arranjo-lhe um sítio junto ao nosso “spot”, e pergunto-lhe se precisa de electricidade.

-Era ideal !! responde-me o seu capitão. Lá se consigo que receba a tão desejada corrente eléctrica de modo a terem uma refeição quente. Nada mais recompensador para mim na manhã seguinte, os sinceros sorrisos de todos os membros da sua tripulação.

O sol brilha pela manhã, o calor torna-se verdadeiramente insuportável no cockpit devido a janela avariada…se isto era no verão, seria bonito….

De uma tirada apenas, alcançamos a nossa base, já pela madrugada, que acorda em grande alvoroço perante a chegada de uma aeronave não agendada. O artilheiro de cauda não quer sair da B-17, ainda me lembro na sua primeira viagem como procurava um qualquer recanto escuro que o fizesse esquecer onde estava.

A missão de reconhecimento elevou o desafio. Exigiu e deu.

Algo que nos dias de hoje, está totalmente em desuso, perdidos numa cultura de limbo, esquecendo o dever exigir, mas também o de dar.